Você já reclamou de ter que esperar um ou dois anos pela continuação do seu filme favorito? Pois prepare-se para repensar o seu conceito de ansiedade. Em algum lugar nas adegas subterrâneas da França, existe um filme totalmente finalizado, editado e pronto para exibição, mas que carrega uma restrição inusitada: nem eu, nem você, nem mesmo o diretor do longa estaremos vivos para acompanhar a sua estreia.
Parece ficção, mas Isso Existe… e o próprio nome da obra já entrega a premissa dolorosa: 100 Years: The Movie You Will Never See (100 Anos: O Filme Que Você Nunca Verá).
Gravado no já distante ano de 2015, o projeto é uma colaboração insólita entre o aclamado ator e roteirista John Malkovich e o aclamado diretor Robert Rodriguez (o mesmo responsável por clássicos como Sin City e Pequenos Espiões). A dupla se uniu não para tentar quebrar recordes de bilheteria ou dominar os streamings no fim de semana de lançamento. O objetivo era criar uma obra cinematográfica que só verá a luz dos projetores — ou seja lá qual for a tecnologia equivalente no futuro — no dia 18 de novembro de 2115. Fazendo as contas rápidas aqui no nosso calendário atual de 2026, faltam “apenas” 89 longos anos de espera.

Mas por que alguém gastaria milhões de dólares e meses de suor em uma obra de arte para escondê-la da própria geração que a concebeu? A resposta está em uma curiosa mistura de luxo e tempo. O curta-metragem experimental foi inteiramente financiado pela empresa Rémy Martin para promover o seu lendário conhaque Louis XIII. O detalhe fascinante dessa bebida é que cada garrafa leva exatamente um século para amadurecer nos barris de carvalho. O mestre de adega que inicia o preparo do conhaque hoje tem a absoluta certeza de que jamais provará o resultado do seu trabalho. A ideia da campanha foi aplicar essa mesma melancolia poética e paciência extrema ao cinema.

A trama de 100 Years é um segredo guardado a sete chaves, protegido por rigorosos acordos de confidencialidade. Malkovich escreveu e estrela a produção ao lado da atriz chinesa Shuya Chang e do especialista em artes marciais chileno Marko Zaror. Sabemos apenas que os papéis se dividem puramente em “Herói”, “Heroína” e “Vilão”, e que o filme é uma ficção científica que tenta imaginar visualmente como será o planeta Terra e a sociedade humana no século XXII. Durante a divulgação em 2015, três teasers falsos foram lançados (mostrando futuros pós-apocalípticos, utópicos e retrô), mas Rodriguez confirmou que nenhuma daquelas cenas faz parte do filme oficial.
Para garantir que nenhum hacker engenhoso, funcionário mal-intencionado ou produtor apressado vaze o conteúdo antes da hora, a única cópia física do filme foi isolada do mundo de uma maneira digna de filmes de espionagem. Esqueça HDs externos ou servidores na nuvem; a fita original foi trancada.
ISSO EXISTE?! O cofre que guarda o filme 100 Years é uma obra de engenharia encomendada à empresa Fichet-Bauche. Ele possui um vidro blindado intransponível e não tem fechadura, teclado de senha ou leitor biométrico. Ele opera exclusivamente com um temporizador mecânico e digital programado para uma contagem regressiva de um século. É literalmente impossível abrir a pesada porta antes do dia 18 de novembro de 2115. Se o cofre ficar sem energia ou o prédio for destruído? Não tem problema. O relógio interno possui um sistema de backup autônomo e ininterrupto. Quando o cronômetro finalmente zerar, a porta se abrirá automaticamente, não importa o que esteja acontecendo no mundo lá fora.
E como fica a pré-estreia e a lista de convidados para um evento que vai acontecer daqui a nove décadas? A Louis XIII resolveu isso distribuindo mil ingressos físicos — forjados em metal indestrutível, claro — para mil pessoas influentes ao redor do mundo em 2015. A regra do jogo é que esses convites inusitados passem de geração em geração como uma herança de família, até que os bisnetos ou tataranetos dos donos originais possam usar a peça de metal para entrar na sessão exclusiva, que ocorrerá na Casa do Louis XIII, na França.

É bizarro e fascinante pensar que, até que as engrenagens desse cofre finalmente destravem, o próprio conceito de “ir ao cinema” pode se tornar uma relíquia histórica. Talvez as pessoas em 2115 consumam mídia através de chips neurais, implantes de memória ou hologramas de imersão total sensorial, e achem pitoresca e rudimentar a ideia de se sentar em uma cadeira para olhar para uma tela plana 2D gravada por seus ancestrais mortos há um século. De qualquer forma, Malkovich e Rodriguez imortalizaram a paciência humana em celuloide. Trata-se de uma obra de arte feita por fantasmas do passado, para ser assistida por espectadores que, em sua esmagadora maioria, ainda nem nasceram. E acredite, Isso Existe!
Fontes:
- AdoroCinema: 100 Years – Filme 2115
- Rolling Stone Brasil: John Malkovich e Robert Rodriguez levam a Cannes filme que só será lançado em 100 anos; assista ao trailer
- IGN News: The Robert Rodriguez Movie No One Will See for 100 Years
