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A Era da Bostificação: Por que a internet piorou?

Você já teve a nítida sensação de que a internet está, ano após ano, ficando consideravelmente pior? Que aquele aplicativo que você amava agora é um labirinto confuso de anúncios e pop-ups? Que o Google não encontra mais exatamente o que você procura, a Amazon se transformou em um camelódromo digital caótico e o seu feed nas redes sociais mostra absolutamente tudo, menos as postagens reais dos seus amigos? Se você sente essa frustração diária batendo à porta, saiba que não é apenas o seu saudosismo falando ou uma teoria da conspiração.

Essa decadência contínua, sufocante e quase palpável das plataformas online tem um nome oficial, um ciclo de vida academicamente documentado e até um prêmio linguístico de prestígio. Apresento a vocês o conceito de “Enshittification” — que, em um português maravilhosamente direto e sem meias palavras, nós traduzimos como a bostificação das coisas. E acredite, Isso Existe!


O Arquiteto da Palavra

O termo foi cunhado em novembro de 2022 pelo jornalista, escritor de ficção científica e incansável ativista dos direitos digitais canadense Cory Doctorow. O que começou como uma observação ácida em seu blog pessoal, o Pluralistic, rapidamente incendiou a internet e se tornou a lente definitiva através da qual o mundo passou a enxergar a ruína da tecnologia moderna.

A palavra capturou tão perfeitamente o espírito estressante do nosso tempo que a American Dialect Society, uma venerável instituição de linguistas, elegeu a “enshittification” como a sua Palavra do Ano em 2023. Não é todo dia que acadêmicos validam um palavrão disfarçado de neologismo para definir uma era tecnológica inteira.

O Ciclo de Vida da Bostificação

Mas, afinal, o que é a bostificação na prática? Doctorow não criou apenas um xingamento criativo para direcionar à tela do computador; ele mapeou o ciclo de vida predatório e inevitável das plataformas de dois lados — aquelas gigantes que conectam você (o usuário) a eles (os fornecedores, anunciantes e criadores). É um processo metódico, previsível e de extração de valor que ocorre em três estágios cruciais. Acompanhe a autópsia de como as plataformas nascem, apodrecem e, eventualmente, morrem.

Estágio 1: O Canto da Sereia O primeiro estágio é a Era de Ouro, ou a fase da “isca”. É quando a plataforma é incrivelmente, quase suspeitamente, boa para você. O Uber oferecia corridas em carros executivos luxuosos com motoristas de terno pelo preço de uma passagem de ônibus; a Amazon vendia livros com prejuízo para si mesma e lhe dava frete grátis garantido; o Google trazia exatamente a resposta para a sua dúvida na primeira linha, sem que você precisasse rolar a tela. Nesta fase, as empresas torram bilhões em dinheiro de investidores de risco para criar um ambiente perfeito. O objetivo não é o lucro imediato, mas o aprisionamento confortável. Eles querem que você dependa deles.

Estágio 2: A Traição Uma vez que os usuários estão capturados na rede — porque todos os seus amigos estão na plataforma da Meta, ou porque você já está preso na assinatura do Prime, ou porque os táxis tradicionais desapareceram das ruas —, começa o segundo estágio. A plataforma vira o canhão de exploração para os usuários, com o intuito de agradar os clientes comerciais (os anunciantes e vendedores). Seu feed do Instagram deixa de mostrar as fotos dos seus familiares para empurrar vídeos curtos virais de estranhos e uma avalanche de produtos patrocinados. As buscas da Amazon escondem o item de melhor qualidade para destacar, no topo da página, aquele produto de procedência duvidosa cujo vendedor pagou mais pelo anúncio. O ambiente fica gradativamente tóxico para você, mas extremamente lucrativo para os negócios.

Estágio 3: A Sugada Final Finalmente, entramos na bostificação terminal. Com usuários e fornecedores trancafiados no ecossistema e sem alternativas viáveis, a plataforma decide que é hora de recompensar seus verdadeiros e únicos mestres: os acionistas de Wall Street. Ela passa a abusar também dos clientes comerciais. O YouTube, TikTok ou a Twitch começam a reter fatias absurdas da receita dos criadores de conteúdo que construíram o site; o iFood e a Uber pagam uma miséria aos motoristas e entregadores enquanto cobram taxas de serviço exorbitantes dos passageiros e restaurantes. Todo o valor gerado por todos os lados é sugado impiedosamente para o topo da pirâmide corporativa.

Isso Existe?! A votação da American Dialect Society que coroou a bostificação não é feita por meia dúzia de pessoas em uma sala escura. É um evento anual massivo, realizado juntamente com a reunião da Sociedade Linguística da América. Em 2023, centenas de acadêmicos, dicionaristas e historiadores da língua se reuniram em um salão de hotel em Nova York e, em um microfone aberto, defenderam apaixonadamente por que um termo que descreve a internet se transformando em “bosta” era a expressão linguística mais precisa e necessária do ano, vencendo candidatos de peso ligados a IA e cultura pop.

Por que não fugimos?

Você pode estar se perguntando por que nós simplesmente não deletamos nossos perfis e abandonamos esses serviços assim que a decadência e os anúncios começam a nos sufocar. A resposta reside em um conceito econômico clássico chamado “alto custo de troca” e na nossa complacência global com a formação de monopólios gigantescos.

Quando a internet era mais jovem e selvagem, se o MySpace ou o Orkut ficassem insuportáveis, você simplesmente arrumava suas malas digitais e migrava para o próximo site com facilidade. Hoje, tentar sair do ecossistema fechado da Apple, trabalhar sem as ferramentas do Google ou tentar manter uma vida social sem as redes da Meta significa, na prática, aceitar o exílio digital. Os portões estão trancados por dentro.

A Esperança no Fim do Túnel

Parece o roteiro de uma ficção distópica maçante sobre corporações malignas dominando o mundo aos poucos, mas, acredite, Isso Existe… e dita rigorosamente as regras do nosso consumo moderno.

No entanto, Doctorow nos deixa um aviso importante: a bostificação não é uma lei imutável da física ou da tecnologia, mas sim o resultado direto de escolhas e políticas econômicas ruins. A cura para essa doença envolveria forçar por lei a “interoperabilidade” — imagine poder mandar uma mensagem do seu aplicativo direto para o de um amigo em outra plataforma, sem restrições —, quebrar monopólios de tecnologia e garantir legalmente aos usuários o direito de saída com seus próprios dados. Até que essas regulamentações ganhem tração, continuaremos navegando por uma internet que promete a liberdade do mundo, mas entrega, a cada clique, um ambiente cada vez mais hostil, caro e exausto.


Fontes:

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