Por séculos, arqueólogos e historiadores esbarraram em uma barreira intransponível. O que fazer quando a única cópia de um decreto grego crucial está rachada ao meio e faltam palavras fundamentais? Ou, pior ainda, o que fazer quando uma biblioteca inteira contendo o conhecimento do mundo antigo é reduzida a blocos de carvão pela fúria de um vulcão? Até muito pouco tempo atrás, a única resposta era a frustração. Mas hoje, algoritmos avançados estão fazendo o que gerações de Ph.Ds consideravam impossível: eles estão ressuscitando as vozes dos mortos.

A revolução começou a tomar forma com os laboratórios do Google DeepMind e o desenvolvimento de um modelo de linguagem chamado Ithaca. Diferente dos IAs tradicionais que são treinados para escrever e-mails ou gerar códigos de programação, o Ithaca foi alimentado com o maior banco de dados digital de inscrições gregas antigas do mundo. Historiadores frequentemente encontram lajes de pedra com textos fragmentados, onde faltam letras ou frases inteiras, dificultando a compreensão do contexto.
O Ithaca trata essas pedras quebradas como um complexo quebra-cabeça de probabilidades matemáticas. Analisando padrões linguísticos, gramaticais e históricos em uma velocidade sobre-humana, o algoritmo não apenas sugere o texto que está faltando com impressionante exatidão, mas também age como um detetive geográfico e temporal. Ele consegue prever em qual das 84 regiões do mundo antigo aquela pedra foi esculpida originalmente e em qual década exata (entre 800 a.C. e 800 d.C.) o texto foi produzido. O que levava meses de intenso debate acadêmico agora ganha uma direção sólida em questão de segundos.
No entanto, por mais incrível que seja adivinhar textos em pedras quebradas, o maior milagre tecnológico desta década aconteceu com o papel. Mais especificamente, com os Papiros de Herculano. Em 79 d.C., a erupção do Monte Vesúvio não destruiu apenas Pompeia; ela soterrou a luxuosa cidade de Herculano e, com ela, uma vasta biblioteca privada (que se acredita ter pertencido ao sogro de Júlio César). Centenas de rolos de papiro foram instantaneamente “cozidos” a temperaturas extremas, transformando-se em blocos maciços de carvão. Se você tentar desenrolá-los fisicamente, eles viram pó. Parecia o fim da linha para obras perdidas de grandes filósofos, poetas e dramaturgos da antiguidade. Parece ficção, mas Isso Existe… uma solução tecnológica apareceu.
A resposta veio através do Vesuvius Challenge (Desafio do Vesúvio), uma competição global que ofereceu mais de um milhão de dólares em prêmios para quem conseguisse ler o interior desses rolos sem abri-los. A estratégia uniu aceleradores de partículas e aprendizado de máquina. Os cientistas usaram microtomografia de raios-X em 3D de altíssima resolução para mapear as camadas internas do rolo carbonizado, criando um modelo virtual que poderia ser “desenrolado” na tela do computador. O problema é que a tinta antiga, à base de carbono, não aparecia no raio-X, pois tinha a mesma densidade do papiro carbonizado.
Foi então que jovens pesquisadores e estudantes de ciência da computação treinaram algoritmos de visão computacional para procurar o impossível. A IA começou a reconhecer padrões infinitesimais e texturas microscópicas na superfície do papiro que indicavam onde a tinta havia secado há dois milênios. O resultado foi histórico: no final de 2023, a primeira palavra completa — PORPHYRAS (púrpura, em grego antigo) — brilhou na tela. Em questão de meses, passagens inteiras de filosofia epicurista do filósofo Filodemo de Gadara foram decodificadas diretamente das cinzas, textos que os olhos humanos não viam desde os tempos do Império Romano.

A Curiosidade por trás do fato
Como exatamente a IA “enxerga” a tinta se tudo é carvão preto? A mágica reside na detecção de relevo em nanoescala. Quando o escriba antigo pincelou a mistura de fuligem e água no papiro, a água foi absorvida e as minúsculas partículas de fuligem se assentaram sobre as fibras vegetais. Mesmo após o processo violento de carbonização provocado pelo vulcão, a área onde a tinta estava seca manteve uma textura micro-tridimensional marginalmente diferente do papiro limpo ao redor — uma diferença da espessura de poucos mícrons. A Inteligência Artificial não procurou por “cor”, mas sim por “topografia”. Ela sentiu o relevo da escrita como se estivesse lendo braille em um grão de areia. E acredite, Isso Existe!
Essa intersecção arrebatadora entre o ápice da computação do século XXI e as cinzas do primeiro século d.C. abre uma porta vertiginosa para o futuro. Estima-se que há centenas de rolos ainda enterrados em Herculano, sem contar milhares de outros fragmentos espalhados pelo mundo. A qualquer momento, um algoritmo trabalhando silenciosamente em um servidor remoto pode decodificar as peças teatrais perdidas de Sófocles, os tratados matemáticos de Arquimedes ou os anais que revelam a verdadeira política de Roma antiga.
Ironicamente, foi preciso criar a tecnologia mais futurista de todos os tempos para finalmente entendermos o nosso próprio passado.
Fontes:
- Google DeepMind: Predicting the past with Ithaca
- Vesuvius Challenge: Vesuvius Challenge 2023 Grand Prize awarded: we can read the first scroll!
- Vesuvius Challenge: First word discovered in unopened Herculaneum scroll by 21yo computer science student
