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Cunani: O País Falso no Coração da Nossa Amazônia

Imagine a cena: uma nação independente, encravada no meio da selva amazônica, com bandeira própria, selos postais cobiçados, constituição redigida e uma ordem de cavalaria de elite. O detalhe? O presidente dessa nação governava tudo a partir de um confortável apartamento em Paris e nunca, em toda a sua vida, havia sequer pisado na floresta tropical. Parecem os delírios de um roteirista muito criativo de Hollywood, mas acredite, Isso Existe!

Bem-vindos à hilária e inacreditável história da República de Cunani, um “país de mentira” que conseguiu enganar a Europa imperial e se estabeleceu no extremo norte do Brasil no final do século XIX. Uma aventura pitoresca movida a muita ambição, barris de rum e uma lábia sem precedentes.


Para entender como essa bizarrice tomou forma, precisamos voltar ao final do século XIX. A região entre os rios Oiapoque e Araguari (no atual estado do Amapá) era conhecida como o Contestado Franco-Brasileiro. Era uma verdadeira “terra de ninguém”, uma zona neutra disputada diplomaticamente tanto pelo Império do Brasil quanto pela Guiana Francesa. Sem lei, sem Estado e repleta de lendas sobre reservas inesgotáveis de ouro, o local era um ímã irresistível para garimpeiros, pessoas fugindo da justiça e, claro, aventureiros europeus em busca de dinheiro fácil.

Foi exatamente nesse cenário caótico que, em julho de 1886, dois malandros franceses chamados Jean Ferréol Guigues e Paul Quartier chegaram ao pequeno povoado ribeirinho de Cunani. A estratégia diplomática da dupla para tomar a região era peculiar, porém extremamente eficaz: eles simplesmente sentaram na principal taverna do vilarejo e começaram a distribuir rum de graça para qualquer um que aceitasse assinar um pedaço de papel. O documento, avalizado por dezenas de moradores (muito provavelmente inebriados), era nada menos que a Declaração de Independência da “República da Guiana Independente”, que passaria à história popular como a República de Cunani.

Mas todo país que se preze precisa de um Chefe de Estado. Como Guigues e Quartier estavam infinitamente mais interessados em explorar os recursos minerais locais do que em assinar papéis e criar leis, eles decidiram terceirizar a presidência. O cargo caiu no colo de Jules Gros, um jornalista e geógrafo que escrevia sobre a Amazônia para a Sociedade de Geografia de Paris. O grande detalhe é que Gros nunca havia saído do conforto da capital francesa. E é aqui que a história abandona a aventura e abraça a comédia pastelão: Jules Gros levou a brincadeira a sério até demais.

Operando inteiramente de seu escritório em Paris, Gros autoproclamou-se Presidente Vitalício. Com dedicação invejável, ele redigiu uma constituição inteira para o longínquo povoado amazônico, desenhou uma bandeira (que exibia orgulhosamente a frase “Liberdade e Justiça”), ordenou a cunhagem de moedas e, o mais importante de tudo, começou a imprimir selos postais oficiais de Cunani. Até hoje, esses selos são relíquias cobiçadíssimas por filatelistas do mundo inteiro. Afinal, eles contam a história do sistema postal de um país que existia majoritariamente na imaginação de um francês vaidoso.

Evidentemente, essa farsa não poderia durar muito tempo. A audácia de criar uma república em uma área de altíssima tensão internacional chamou a atenção dos governos reais. O Brasil e a França, que já disputavam o território com unhas e dentes, uniram-se momentaneamente pelo constrangimento absoluto. Em 1887, o governo francês cortou o mal pela raiz e extinguiu a primeira versão da república, desautorizando Gros. A fronteira oficial daquela região só seria pacificada anos depois, em 1900, quando o genial diplomata Barão do Rio Branco venceu a arbitragem internacional na Suíça, garantindo definitivamente a área para o mapa do Brasil.

Ainda assim, o sonho do “país falso” era duro de matar. No início do século XX, outro golpista ousado, Adolphe Brézet, tentou reviver a falcatrua a partir de Londres e Paris, criando o “Estado Livre de Cunani” e vendendo passaportes e fardas militares para europeus desavisados. Atualmente, com a paz restaurada há mais de um século, Cunani é um pacato e histórico distrito no município de Calçoene (Amapá), famoso pelas suas ricas roças de cacau, seu açaí de primeiríssima linha e pela proximidade com impressionantes sítios arqueológicos milenares.


Isso Existe?! A Ordem da Estrela de Cunani

A verdadeira genialidade do golpe de Jules Gros estava na monetização cirúrgica da vaidade europeia. Como “presidente” de uma nação soberana, ele percebeu que tinha o poder de conceder títulos nobiliárquicos. Gros criou a “Ordem da Estrela de Cunani” e passou a vender títulos de cavaleiro para membros da alta burguesia francesa que sonhavam em ostentar status. O negócio foi tão lucrativo, e a quantidade de “nobres do Cunani” desfilando pelas festas de Paris ficou tão absurdamente alta, que a polícia francesa teve que intervir oficialmente para impedir que mais ricaços fossem vítimas (ou cúmplices) da venda de títulos inventados. Parece ficção, mas Isso Existe… e dava muito lucro!


A epopeia esquecida da República de Cunani é um lembrete maravilhoso de que a história brasileira é tudo, menos monótona. Entre as ambições imperiais da época e o verde infinito e inexplorado da nossa floresta tropical, sobrou espaço perfeito para uma das maiores e mais inusitadas fraudes geopolíticas já registradas. Da próxima vez que alguém lhe disser que a história do Brasil não tem episódios surpreendentes de espionagem, golpes mirabolantes e tramas excêntricas, lembre-se do presidente amazônico que governava uma selva tomando café espresso aos pés da Torre Eiffel.

Gostaria que eu pesquisasse se há outras regiões do Brasil que também tentaram se separar de formas igualmente curiosas e bizarras?


Fontes

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