Recentemente, um boato apocalíptico começou a circular pelas redes sociais: cidades inteiras nos Estados Unidos estariam sendo abandonadas, transformando-se em poeirentas cidades fantasmas, porque a água local teria sido completamente sugada para resfriar data centers. A imagem mental é digna de um filme distópico: moradores fugindo com malas enquanto servidores gigantes piscam luzes azuis no meio de um deserto árido.
Mas será que a nossa sede por inteligência artificial e streaming em 4K chegou a esse ponto crítico? A resposta curta é: não, nenhuma cidade americana foi evacuada ou abandonada por falta d’água causada por servidores. No entanto, a verdade por trás desse exagero é alarmante o suficiente para nos fazer repensar cada clique. Parecia ficção, mas as “guerras da água” digitais já começaram. E acredite, Isso Existe!
Para entender como um mito desses ganha força, precisamos olhar para as entranhas da internet. A “nuvem” não é um vapor etéreo flutuando no céu; ela é composta por galpões colossais de concreto, do tamanho de dezenas de campos de futebol, repletos de milhares de computadores empilhados que funcionam 24 horas por dia, 7 dias por semana. Todo esse processamento monstruoso, especialmente com o boom recente de Inteligências Artificiais generativas, gera uma quantidade absurda de calor.
Se esses servidores não forem resfriados constantemente, eles literalmente derretem ou pegam fogo. E qual é a forma mais barata e eficiente de resfriar essas gigantescas fornalhas digitais? Água. Muita água. Sistemas de resfriamento evaporativo bombeiam milhões de litros de água potável ou tratada pelas torres de resfriamento. Parte dessa água evapora no processo, e outra parte é descartada.
É aqui que a realidade se choca com o boato. Embora nenhuma cidade tenha virado cidade fantasma, várias comunidades estão em pé de guerra contra as gigantes da tecnologia. Um dos casos mais emblemáticos ocorre em The Dalles, uma cidade de cerca de 15 mil habitantes no estado do Oregon, situada às margens do majestoso rio Columbia. O Google construiu data centers por lá e, por muito tempo, lutou na justiça para manter o volume de água consumido como um “segredo comercial”.
Quando os dados finalmente vieram a público após uma longa batalha legal com a imprensa local, o choque foi imenso: os data centers da empresa estavam consumindo cerca de um terço de toda a água da cidade. Isso mesmo. Em 2024, o consumo anual chegou à marca de 434 milhões de galões (mais de 1,6 bilhão de litros). Agricultores locais e moradores que viam o nível de seus poços baixar começaram a se perguntar quem teria prioridade em um cenário de seca extrema: as fazendas que abastecem o país ou os servidores que processam e-mails.

E The Dalles não é um caso isolado. No Arizona, um estado historicamente castigado pela aridez e que enfrenta uma crise hídrica crônica atrelada ao rio Colorado, novos galpões de servidores continuam brotando na região de Phoenix, como em Goodyear. Em Iowa, o complexo do Google em Council Bluffs consumiu quase 1 bilhão de galões de água em 2023. Essa pressão implacável sobre os recursos hídricos municipais força as cidades a expandirem suas infraestruturas e a tomarem decisões dificílimas sobre zoneamento urbano.
As gigantes da tecnologia não estão ignorando o problema. Empresas como Microsoft, Google e Meta firmaram compromissos ambiciosos para se tornarem “water positive” — ou seja, prometeram devolver mais água à natureza do que consomem até o final da década. Elas investem pesado em sistemas de resfriamento de circuito fechado (que reutilizam a água em vez de evaporá-la), técnicas de resfriamento líquido direto nos chips e até acordos multimilionários para tratar esgoto municipal em troca de água de reuso.
Ainda assim, a explosão do tráfego de dados e o treinamento contínuo de IAs cada vez mais robustas estão jogando contra o relógio ambiental. Estima-se que, com o avanço acelerado da IA, o consumo global de água pelos data centers continuará aumentando, gerando um estresse hídrico palpável em diversas regiões. Então, quando você ouvir que uma cidade “secou” por causa da internet, saiba que o termo “abandonada” é fake news, mas a disputa corporativa por cada gota d’água é uma realidade inegável.
ISSO EXISTE?! A Universidade da Califórnia (Riverside) conduziu um estudo profundo estimando o “custo hídrico” de modelos de Inteligência Artificial. Os pesquisadores descobriram que, em média, a cada 10 a 50 perguntas que você faz para um sistema como o ChatGPT, o data center consome o equivalente a uma garrafinha de água de 500 ml para resfriar os servidores durante esse processamento. Multiplique isso por centenas de milhões de usuários diários, e a conta hídrica da “nuvem” rapidamente se transforma em um oceano!
A internet não é invisível; ela tem peso, temperatura e uma sede insaciável. O mito das cidades americanas abandonadas serve como uma alegoria perfeita para o nosso tempo: estamos tão maravilhados com a conveniência e a “mágica” do mundo virtual que raramente paramos para pensar no rastro físico que ele deixa no mundo real. A próxima vez que você fizer uma pergunta banal a um chatbot, lembre-se das tubulações gigantes que correm no subsolo do Oregon. Afinal, a nuvem não é feita de algodão-doce, ela bebe água de verdade. Parece loucura, mas Isso Existe!
Fontes:
- Oregon Public Broadcasting: The Dalles’ mayor called OPB’s data center story inaccurate. Here are the facts
- Associated Press: Oregon city drops fight to keep Google water use private
- ScienceAlert: AI Chugs a Bottle of Water Every Time You Chat With It
