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Infinity Train: O Desenho Genial Apagado Pela HBO

Imagine que você está passando pelo pior momento da sua vida. Pode ser o divórcio dos seus pais, uma crise de identidade paralisante ou o luto pela perda de um amigo. De repente, você foge de casa na calada da noite e, no meio do nada, um trem colossal e misterioso aparece. As portas se abrem, você entra e descobre que está preso em um veículo de proporções infinitas. Cada vagão contém um universo inteiro: desde reinos governados por cães da raça Corgi até mundos de espelhos onde seu próprio reflexo tem vontades próprias. E na sua mão direita? Um número verde brilhante que dita o seu destino. Parece ficção, mas Isso Existe!

Pelo menos, existia no catálogo das grandes plataformas de streaming. Criada pelo genial Owen Dennis, Infinity Train (Trem Infinito, no Brasil) começou como um modesto curta-metragem lançado no canal do Cartoon Network no YouTube em 2016. A premissa era tão bizarra e fascinantemente sombria que o vídeo viralizou de forma orgânica, forçando a emissora a dar luz verde para uma temporada completa. O que se seguiu foi uma das produções animadas mais maduras, psicologicamente complexas e existencialistas da última década.

A mecânica do trem é, ao mesmo tempo, um milagre da ficção científica e um terror psicológico. O número brilhante na mão do passageiro não é uma contagem regressiva para a morte, mas sim um medidor de trauma emocional. Sempre que o passageiro tem uma epifania, demonstra empatia ou supera um bloqueio psicológico, o número diminui. Se ele se recusa a crescer, cede ao egoísmo ou à raiva, o número aumenta. O objetivo final é zerar a contagem. Quando isso acontece, um portal se abre, permitindo que a pessoa volte para casa, curada (ou, pelo menos, em processo de cura). O trem é, em sua essência, uma máquina de terapia de choque interdimensional.

E é no formato de antologia que a série brilha, mudando de protagonista a cada “Livro” (temporada). O Livro 1 acompanha Tulip Olsen, uma brilhante garota de 13 anos obcecada por programação de computadores que está fugindo da dor do divórcio de seus pais. Para a mente extremamente lógica de Tulip, o fim do casamento não faz sentido; é um erro no sistema que ela quer consertar. Acompanhada por One-One (um robô esférico hilário com dupla personalidade) e Atticus (o nobre rei dos cães Corgi), a jornada de Tulip é sobre aceitar que as emoções humanas não são equações matemáticas. Ela precisa aprender que não tem controle sobre as escolhas dos adultos e que abraçar a tristeza é o único caminho para processar o luto e seguir em frente.

Já o Livro 2 dá um salto narrativo absurdamente corajoso ao focar em “MT” (Mirror Tulip), o reflexo da protagonista anterior. Após escapar do Mundo dos Espelhos no primeiro livro, MT é agora uma fugitiva, caçada impiedosamente pela “Polícia do Reflexo” por quebrar a regra fundamental de apenas imitar sua humana. Ela cruza o caminho de Jesse, um garoto dócil e influenciável que precisa aprender a se impor, e de Alan Dracula, um cervo onipotente que dispara lasers pelos olhos. O Livro 2 é uma alegoria densa e brilhante sobre o livre-arbítrio, identidade própria e marginalização. MT, que eventualmente escolhe o nome “Lake” (Lago), luta furiosamente para provar que é uma pessoa real, e não apenas um subproduto do sistema do trem, exigindo o direito de existir e ter seu próprio futuro.

Mas é no Livro 3 que a série atinge seu ápice sombrio, frequentemente citado como um dos momentos mais chocantes da animação ocidental. Aqui, acompanhamos Grace e Simon, os líderes adolescentes do “Ápice” — um culto perigoso de crianças perdidas no trem. Eles acreditam que o objetivo não é zerar o número, mas sim aumentá-lo infinitamente para “dominar” o veículo, saqueando vagões e aterrorizando os habitantes mágicos. A dinâmica muda quando eles encontram Hazel, uma garotinha peculiar. A temporada é um mergulho devastador na radicalização ideológica, nas câmaras de eco e na dissonância cognitiva. O espectador assiste, em choque, à linha tênue entre a redenção de quem aceita estar errado (Grace) e a queda livre e assassina de quem se recusa a abandonar suas crenças tóxicas (Simon).

E então chegamos ao Livro 4, que acabou se tornando o encerramento prematuro da série. Diferente da espiral de escuridão da terceira temporada, a quarta foca em Ryan e Min-Gi, dois amigos de infância do Canadá que sonhavam em ter uma banda de rock nos anos 1980, mas cujos caminhos divergentes e ressentimentos os afastaram. A genialidade conceitual aqui atinge seu ápice: pela primeira vez, duas pessoas embarcam juntas e recebem exatamente o mesmo número. Eles são forçados a cooperar, a se comunicar e a curar a amizade fragmentada se quiserem voltar para casa. É uma exploração tocante, movida a muita música e sintetizadores, sobre como nossos traumas muitas vezes estão irrevogavelmente entrelaçados com as pessoas que mais amamos.

Apesar da aclamação universal da crítica e de uma base de fãs fervorosa, a obra sofreu um destino cruel nos bastidores corporativos. Em 2022, durante a conturbada fusão entre a Warner Bros. e a Discovery, o novo CEO David Zaslav implementou cortes de gastos implacáveis. Em um movimento que chocou a indústria, Infinity Train não foi apenas cancelada; ela foi virtualmente apagada da existência. A série foi removida do catálogo da HBO Max, seus vídeos promocionais foram deletados do YouTube e as trilhas sonoras sumiram das plataformas de música. Tudo isso para abater impostos.

Isso Existe?! A revolta contra o apagamento da série foi tão grande que o próprio criador da obra tomou uma atitude impensável para a indústria. Logo após a remoção oficial, Owen Dennis alterou a biografia de suas redes sociais para: “Criador de Infinity Train, um programa que foi retirado da HBO Max e agora só pode ser pirateado.” O ato de rebeldia escancarou a fragilidade da mídia digital e a falta de preservação histórica na era do streaming corporativo.

Hoje, Infinity Train sobrevive como uma lenda urbana digital, mantida viva pela paixão de uma legião de fãs que se recusam a deixar o trem descarrilar rumo ao esquecimento. É uma obra-prima sobre crescimento pessoal que, ironicamente, acabou se tornando o maior símbolo do quão descartável a arte pode ser para os conglomerados de mídia. Se você conseguir encontrar uma passagem para embarcar nesta jornada, prepare-se: o Trem Infinito vai consertar a sua alma, mas vai partir o seu coração no processo.


Fontes:

Polygon: Infinity Train creator Owen Dennis speaks out after HBO Max removes series

IGN: HBO Max Is Reportedly Removing Content To Save Money

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