Quando pensamos no Japão, a mente é inundada por imagens quase utópicas: trens-bala que nunca se atrasam um segundo sequer, metrópoles neon extremamente seguras, a cortesia impecável do omotenashi (a tradicional hospitalidade japonesa) e uma cultura pop que conquistou o globo. O país exportou com maestria a imagem de uma nação harmoniosa, pacífica e altamente civilizada. No entanto, por trás das cerejeiras em flor e dos templos milenares, esconde-se uma realidade estrutural dura que os guias turísticos preferem omitir.
A verdade é que a sociedade japonesa lida com um problema profundo, histórico e muitas vezes velado de exclusão. Seja você um turista de passagem, um imigrante buscando uma vida melhor ou até mesmo alguém que nasceu e cresceu em solo nipônico, a cor da sua pele ou a origem do seu sobrenome podem determinar seu lugar na sociedade. Parece ficção em um país tão avançado, mas Isso Existe… e afeta milhões de pessoas diariamente.
Para entender o racismo no Japão, é preciso primeiro desmontar o “Mito da Homogeneidade”. Desde o final do século XIX, o Estado japonês trabalhou incansavelmente para construir a narrativa de que o país é habitado por uma única raça pura, os Yamato, unidos por uma linhagem divina ininterrupta. Essa ideologia nacionalista foi crucial para a coesão do país durante sua rápida modernização, mas custou caro às minorias. Povos indígenas, como os Ainu (no norte, em Hokkaido) e os Ryukyuanos (no sul, em Okinawa), sofreram campanhas agressivas de assimilação forçada, tendo suas línguas e costumes proibidos em nome da criação de um “Japão único”. Até hoje, a crença de que o Japão é uma nação 100% homogênea serve como escudo para justificar atitudes excludentes contra qualquer um que não se encaixe no molde.
Essa divisão entre o “nós” e o “eles” fica evidente logo no vocabulário. A palavra mais comum para estrangeiro no Japão é Gaijin (外人), que literalmente se traduz como “pessoa de fora”. Embora muitos argumentem que é apenas uma abreviação inofensiva de Gaikokujin (pessoa de um país exterior), o termo carrega um peso social gigantesco: ele demarca uma barreira invisível, lembrando constantemente que você não pertence àquele lugar. Essa exclusão transcende a semântica e se materializa em placas de “Japanese Only” (Apenas para Japoneses) penduradas na porta de restaurantes, bares, casas de banho (onsens) e até mesmo em imobiliárias. É assustadoramente comum que estrangeiros tenham suas fichas de aluguel negadas exclusivamente por não serem japoneses, sob a desculpa esfarrapada de “barreiras linguísticas” — mesmo quando o locatário fala o idioma fluentemente.

Mas talvez a faceta mais dolorosa dessa xenofobia estrutural recaia sobre os Zainichi. O termo refere-se aos coreanos étnicos que vivem no Japão, muitos dos quais são descendentes daqueles que foram trazidos como força de trabalho durante o cruel domínio colonial japonês na Península Coreana (1910-1945). Após a Segunda Guerra Mundial, o governo japonês revogou unilateralmente a cidadania imperial dessas pessoas. De repente, centenas de milhares de coreanos que não tinham para onde voltar tornaram-se apátridas em sua própria casa. Submetidos a leis severas de registro de estrangeiros, eles foram forçados a carregar cartões de identificação e sofreram a humilhação de ter suas impressões digitais coletadas sistematicamente, como se fossem criminosos em potencial. Até os dias atuais, muitos Zainichi de terceira ou quarta geração usam nomes japoneses falsos (os tsūmei) para esconder sua ascendência e conseguir emprego, fugindo da marginalização crônica.
Outro fenômeno que escancara a complexidade racial nipônica é o tratamento dado aos Hafu. Derivado da palavra inglesa “half” (metade), o termo é usado para descrever pessoas birraciais, filhas de um genitor japonês e outro estrangeiro. A sociedade japonesa costuma ter uma relação de extrema hipocrisia com os hafu. Por um lado, quando eles alcançam sucesso internacional — como a tenista Naomi Osaka ou a Miss Universo Japão 2015, Ariana Miyamoto —, a mídia rapidamente os abraça como o “orgulho da nação”. Por outro lado, longe dos holofotes, crianças e adultos birraciais (especialmente aqueles com ascendência negra ou do sudeste asiático) sofrem o temido ijime (bullying severo) nas escolas, enfrentam microagressões diárias e são frequentemente parados pela polícia sob a suspeita de não serem cidadãos autênticos. A mensagem implícita é brutal: você só é considerado japonês quando está com uma medalha de ouro no peito.

Isso Existe?! > Acredite se quiser: o Japão é a única nação do G7 que não possui uma lei nacional que proíba especificamente a discriminação racial. Apesar da Constituição prever a igualdade perante a lei, não há um código penal que puna diretamente atos de racismo no setor privado (como um dono de bar proibir a entrada de negros ou ocidentais). A Organização das Nações Unidas (ONU) publica relatórios frequentes criticando duramente o país pela negligência em combater o discurso de ódio e a segregação.
Admirar a riquíssima cultura do Japão não exige que fechemos os olhos para suas feridas sociais. O país do sol nascente encontra-se atualmente em uma encruzilhada: com uma população envelhecendo rapidamente e a força de trabalho encolhendo, o governo tem sido forçado a abrir as portas para a imigração e repensar suas políticas. No entanto, a verdadeira mudança precisa ocorrer na mentalidade coletiva, substituindo o medo do diferente pela aceitação de que o Japão moderno já é, quer os nacionalistas gostem ou não, uma sociedade diversa. Desromantizar o Japão é o primeiro passo para compreendê-lo de verdade em toda a sua fascinante e imperfeita glória. E acredite, Isso Existe!
Fontes:
- Wikipedia: Racism in Japan
- Asian Studies: Zainichi: The Korean Diaspora in Japan
- The Japan Times: Will Japan ever truly accept ‘half-Japanese’?
