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Projeto Habakkuk: O Porta-Aviões de Gelo da 2ª Guerra

Estamos em meados de 1942. O mundo está mergulhado na mais brutal das guerras e a Batalha do Atlântico não vai nada bem para os Aliados. Os submarinos alemães — os temíveis U-boats — estão afundando navios de suprimentos em um ritmo aterrador, criando um verdadeiro cemitério de metal nas profundezas do oceano. O aço é escasso, o alumínio é disputado a tapa e o desespero logístico exige uma solução que beira o delírio.

Mas e se a resposta para derrotar o Eixo não viesse das chaminés de uma siderúrgica tradicional, mas do interior de um gigantesco congelador? Parece o rascunho descartado de um livro de ficção científica ruim, mas Isso Existe! Conheça agora a insana — e rigorosamente real — proposta de construir o maior navio de guerra do mundo utilizando absolutamente nada além de gelo e madeira.

Para entendermos esse delírio, precisamos apresentar o cérebro por trás da operação: Geoffrey Pyke, um inventor e jornalista britânico que trabalhava para o Quartel-General de Operações Combinadas. Pyke era o arquétipo do “cientista maluco”, conhecido por ter ideias brilhantes, embora frequentemente bizarras. Ao analisar a escassez de aço e o fato de que os aviões aliados não tinham autonomia de voo suficiente para caçar submarinos no meio do Oceano Atlântico, ele teve um estalo: por que não achatar a superfície de um iceberg e usá-lo como uma pista de pouso flutuante?

A ideia original de usar icebergs naturais foi logo descartada. O gelo comum, apesar de duro, é extremamente quebradiço e propenso a rachaduras. Ele estilhaçaria rapidamente sob o impacto de bombas ou torpedos, além de derreter em águas mais quentes. Foi então que a equipe de Pyke tropeçou em um milagre da ciência dos materiais, uma descoberta feita inicialmente por pesquisadores americanos e aprimorada pelos britânicos: uma mistura de aproximadamente 14% de serragem (ou polpa de madeira) e 86% de água que, quando congelada, transformava-se em um supermaterial.

Em homenagem ao inventor, essa liga recebeu o nome de “Pykrete”. E acredite, Isso Existe: os testes mostraram que o Pykrete era até quatorze vezes mais forte que o gelo comum e apresentava uma resistência à compressão comparável à do concreto armado. A madeira em suspensão reduzia drasticamente a condutividade térmica do bloco, fazendo com que ele demorasse uma eternidade para derreter. Para completar a mágica, o material podia ser cortado e moldado como madeira convencional.

O entusiasmo chegou ao alto escalão do governo britânico de forma, digamos, inusitada. A lenda conta que Lord Mountbatten, chefe das Operações Combinadas, invadiu o banheiro do Primeiro-Ministro Winston Churchill enquanto este tomava um banho quente, e jogou um pedaço de Pykrete diretamente na banheira. Durante vários minutos, os dois líderes das forças britânicas ficaram maravilhados assistindo à recusa teimosa do bloco de gelo em derreter na água quente. O sinal verde foi dado, e o Projeto Habakkuk nasceu.

Os planos para o navio eram megalomaníacos. O porta-aviões Habakkuk teria 600 metros de comprimento, 90 metros de largura e pesaria colossais 2 milhões de toneladas (para colocar em perspectiva, os maiores porta-aviões nucleares dos Estados Unidos hoje pesam em torno de 100 mil toneladas). O casco do navio seria feito de uma muralha de Pykrete com 12 metros de espessura, tornando-o virtualmente imune a qualquer torpedo existente.

A pista de pouso seria capaz de abrigar até 150 bombardeiros e caças bimoteres. Para evitar que o colossal leviatã de gelo derretesse no meio do oceano durante o verão, uma complexa rede de tubos de refrigeração circularia ar gelado por todo o casco, alimentada por motores potentes no interior da embarcação.

Um protótipo de 18 metros e mil toneladas chegou a ser construído secretamente no Lago Patricia, na província de Alberta, no Canadá. O modelo em escala de fato funcionou, manteve-se flutuando durante os meses quentes com a ajuda de um pequeno motor de refrigeração e validou a teoria de Pyke. Os canadenses disfarçaram a estrutura de gelo com um telhado de madeira para que parecesse apenas uma humilde casa flutuante aos olhos de possíveis espiões aéreos.

Contudo, a realidade de engenharia acabou não alcançando os sonhos de grandeza. Ao final de 1943, os custos estimados do Projeto Habakkuk haviam disparado. Além disso, a quantidade de polpa de madeira necessária ameaçava paralisar a produção de papel dos Aliados. Paralelamente a isso, o desenvolvimento de tanques de combustível maiores para as aeronaves aliadas, o uso de bases nos Açores e a introdução de radares mais avançados anularam a necessidade de uma ilha de gelo no meio do mar. Os U-boats alemães começaram a ser derrotados por tecnologias mais tradicionais.

Isso Existe?!

Durante a Conferência de Quebec, em 1943, Lord Mountbatten organizou uma demonstração ao vivo para comandantes Aliados de alta patente. Para provar a resistência do novo material, ele sacou sua pistola e atirou em um bloco de gelo comum, que estilhaçou em mil pedaços. Em seguida, atirou no bloco de Pykrete. A bala ricocheteou com tanta violência na “madeira congelada” que raspou na perna do Almirante americano Ernest King e foi parar no teto. Ninguém saiu ferido, mas o susto foi o suficiente para provar o ponto!

O Projeto Habakkuk foi oficialmente cancelado logo em seguida. O colossal protótipo canadense foi abandonado e, comprovando a eficácia do Pykrete, levou impressionantes três verões canadenses inteiros para derreter completamente no Lago Patricia e afundar.

Hoje, a ideia de construir fortalezas náuticas de gelo soa como um devaneio provocado pela privação de sono militar. Mas a saga de Geoffrey Pyke nos lembra de que, em momentos de desespero iminente, a genialidade humana não se apega ao convencional. O porta-aviões de gelo nunca viu combate, mas sua história permanece como um fascinante testemunho da criatividade em tempos sombrios.


Fonte: * Amusing Planet: Project Habakkuk: Britain’s Secret Ship Made of Ice

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