Se você entrar em qualquer loja de departamentos hoje, ou for convidado para um daqueles explosivos “chás revelação”, a regra visual é clara, inquestionável e dividida por um corredor imaginário: rosa choque de um lado, azul bebê do outro. Essa associação parece tão enraizada na nossa cultura que somos levados a acreditar que se trata de uma lei da natureza, quase como se o nosso DNA tivesse uma preferência cromática.
Mas e se eu te dissesse que, há pouco mais de um século, a regra ditada pela moda e pelos grandes varejistas era rigorosamente o oposto? Pode preparar a sua máquina do tempo, porque a história de como as cores ganharam gênero é uma montanha-russa de marketing, conveniência e mudanças culturais drásticas. E acredite, Isso Existe!
Para entender essa reviravolta, precisamos primeiro voltar ao século XIX, uma época em que a paleta de cores para bebês era incrivelmente monótona. Até o final dos anos 1800, não existia essa história de vestir crianças com cores específicas para indicar o sexo. A regra de ouro da moda infantil era puramente utilitária: todos os bebês, fossem meninos ou meninas, vestiam vestidos brancos de algodão. A razão era simples e higiênica, já que roupas brancas podiam ser fervidas e alvejadas repetidamente para remover manchas, algo essencial numa era antes das fraldas descartáveis e das máquinas de lavar modernas. Além disso, vestidos facilitavam a troca de fraldas e podiam ser repassados para os irmãos mais novos, independentemente de nascerem meninos ou meninas.

Foi apenas na transição para o século XX, com o avanço da indústria de tinturas e a popularização dos tons pastéis, que as roupas infantis começaram a ganhar cor. No entanto, a divisão que começou a se formar passava longe do padrão atual. Em junho de 1918, a respeitada publicação comercial americana Earnshaw’s Infants’ Department cravou uma diretriz que hoje deixaria muitos pais confusos: “A regra geralmente aceita é rosa para os meninos e azul para as meninas”.
A justificativa da época era fascinante e pautada no simbolismo histórico. O rosa era visto como um tom derivado do vermelho, uma cor historicamente associada ao sangue, ao fogo, à guerra e à virilidade. Portanto, o rosa era considerado uma cor “forte e decidida”, ideal para formar futuros rapazes. Já o azul era visto como uma cor “delicada e amável”, intimamente ligada ao manto da Virgem Maria na tradição católica europeia, sendo, portanto, a escolha óbvia para representar a pureza e a feminilidade das pequenas garotas.


Na Europa, algumas lendas folclóricas também tentavam justificar preferências regionais. Na França, popularizou-se o antigo ditado de que “os meninos nascem nos repolhos e as meninas nascem nas rosas” (les garçons naissent dans les choux et les filles dans les roses). Isso ajudou a empurrar levemente o rosa para as meninas em solo francês muito antes do resto do mundo, mas não era, de forma alguma, um padrão global. A verdadeira padronização global não veio de contos de fadas, mas sim do poder avassalador do varejo pós-Segunda Guerra Mundial.
Isso Existe?! Parece ficção, mas em 1927 a prestigiada revista Time publicou um gráfico detalhando as cores recomendadas pelas maiores lojas de departamento dos Estados Unidos. Lojas gigantescas e formadoras de opinião, como a Filene’s em Boston, a Halle’s em Cleveland e a Best & Co. em Nova York, instruíam explicitamente os pais a vestirem seus filhos homens com roupas cor-de-rosa!
A grande inversão para o padrão atual aconteceu de forma gradual entre as décadas de 1940 e 1950. Com o fim da Segunda Guerra Mundial e o início do Baby Boom, os fabricantes de roupas e publicitários perceberam que poderiam lucrar o dobro se criassem uma distinção rígida e inconfundível entre os sexos. Por razões puramente baseadas em tendências de consumo da época e preferências de figurino de ícones do cinema, o mercado decidiu investir pesado na ideia de que o rosa era para meninas e o azul para meninos. Se uma família tivesse uma menina e depois um menino, não poderia mais reaproveitar o enxoval rosa, sendo forçada a comprar um guarda-roupa inteiro novo em azul. O capitalismo, como sempre, ditando as regras do jogo.
Essa divisão sofreu um breve revés nos anos 1970, com a ascensão do movimento de libertação feminina, que promoveu roupas unissex para evitar estereótipos de gênero desde o berço. Mas nos anos 1980, com a popularização dos exames de ultrassom pré-natal, o mercado de cores voltou com força total. Pela primeira vez na história, os pais podiam saber o sexo do bebê antes do nascimento e o varejo inundou as lojas com produtos perfeitamente divididos entre as duas cores.

No fim das contas, a próxima vez que você se pegar julgando a cor da roupa de um recém-nascido, lembre-se de que nada disso é biológico ou milenar. A cor que define o seu gênero depende, inteiramente, da década em que você nasceu e de qual loja de departamentos estava ditando a moda.
Fontes:
- Smithsonian Magazine: Unraveling the Colorful History of Why Girls Wear Pink and Boys Wear Blue
- Reader’s Digest: How Pink and Blue Became the “Girl” and “Boy” Baby Colors
- Alsagarden: Légende : Les garçons naissent dans les choux et les filles dans les roses
